domingo, 18 de febrero de 2007

STAY BEAUTIFUL AND SMILE

Uma crise existêncial sempre serve para reavivar traumas. Na minha
última, acabei deparando com o mais escondido deles. Acho que todo
mundo tem um desses, que estão escondidos lá em meados da adolescência
e que adormecem dentro da alma, cercados por escudos de platina. Um
belo dia, um choque arrebenta esses escudos e finalmente você acorda!
É a hora de encarar de frente o que evitou durante tanto tempo.

Meu grande trauma, como o de várias garotinhas (posso dizer a maioria
que eu conheço) não poderia ser mais clichê: Beleza. Fui uma
adolescente gordinha e feia pra cacete, tenho que admitir. Tive uma
fase tão trash que nem fotos eu tirava. Passei quase dois anos usando
aparelho e não tenho nenhum registro dessa época. Apesar de ter
emagrecido e ter virado uma pessoa até bonitinha, o esteriótipo de
feia grudou. Para compensar o fato de saber que eu nunca iria ser a
gatinha da turma, acabei virando a intelectualoide estranha. Ainda
bem que eu tive a sorte de não nascer burra, mas com o tempo comecei a
me cobrar demais também desse lado. Eu precisava ser um gênio, coisa
que minha auto-crítica nunca me deixaria por medo de tentar e
fracassar nisso também.

Foi esse o início da minha crise. Já tinha um namorado ¨perfeito¨, já
tinha sexo todo dia, já sabia que iria casar. Agora tinha que ser a
melhor fotógrafa da minha geração para ser feliz e na verdade não
conseguia nem ser uma fotógrafa medíocre. Foi quando uma bomba atômica
caiu no meu colo: Fui trocada por uma gostosa. A única coisa que
parecia certa na minha vida havia acabado e agora eu tinha que
enfrentar esse outro probleminha: Eu também não era uma gostosa. Por
mais que eu fosse inteligente, de um humor refinado, de boa família,
viajada, e com um equilíbrio emocional invejável, eu não era uma
gostosa. Por mais que eu fosse ajeitadinha, eu tive que encarar:
Ajeitadinhas são trocadas por gostosas na primeira oportunidade.

A primeira reação foi tentar pegar o primeiro gostoso que eu visse
pela frente, mas quem disse que um gostoso quer pegar uma ajeitadinha
aos cacos com a auto-estima enlamaçada no fundo do poço? Depois de
quebrar feito prato duralex (é dificil mas quando consegue
praticamente esfarela), fui juntando os caquinhos um a um para
reconstruir o que um dia havia sido um ego. Uma visita no dentista,
uma na dermatologista, uma na academia e uma na cama de um antigo ex.
Uma ajeitada no cabelo e uma visita à Argentina para renovar o
guarda-roupa e limpar a vista (viver em Recife é foda, ô povo brega)!
Dois meses depois eu tinha me enquadrado perfeitamente nos padrões de
beleza e ainda por cima era inteligente! Voltei aos vinte e dois anos
no corpo e na alma (pena que não se possa enganar o útero). Beijei
quem eu quis e quem eu não quis. Sorri para o mundo e ri da cara dele.
Foi tão fácil que deu até raiva de ter fugido por tanto tempo.
Finalmente livre! Livre para fotografar sem a cobrança de ter que ser
a melhor.

Agora a minha grande dúvida é: Patinho feio virar cisne é fácil, mas
será que é igualmente simples uma gostosa virar intelectual? Acho que
esse deveria ser o mais novo reality show: Cult MakeOver. Só não sei
se seria interessante para as redes de televisão estimular o
intelecto, deve ser muito mais lucrativo vender cosméticos que
livros.

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