domingo, 18 de febrero de 2007

BRINDES

O primeiro brinde é sempre o mais cheio. Umas 15 cervejas
comemoravam o começo oficial do fim de semana madrilenho. Aos poucos
começava a me sentir parte do grupo tão fechado. Forcei a barra, mas
finalmente estava somente entre espanhóis. Nada mais de guetos
gringos, estava no caminho para conhecer a essência desse país: Seu
povo, seus homens.
Ainda que meio sem jeito, o segundo brinde já vem mais fácil. Os
primeiros copos se vão e a conversa se torna mais pessoal. Já não se
fala mais de fotografia, o assunto da vez é a diferença entre homens
e mulheres. Começo a tentar entender o que ele quer, me disse que
gostava de garotas tímidas, o que não é nenhum esforço pois já sou.
Uma outra sugere que poderia dar todos os passos de como ficar comigo
mesmo sem me conhecer pois todas as mulheres afinal são iguais. Em tom
de brincadeira, mas com o sorriso que confessa a intenção diz que quer
tentar. Alguns olhares, alguns sorrisos mais.
O terceiro brinde vou com ele buscar. Os toques acontecem, quase que
sem querer, daqueles que dão choque. Mais algumas indiretas e voltamos
à mesa. Somos apenas quatro agora. Os assuntos são ainda mais
pessoais, a ¨gordinha engraçada¨ conduz a conversa. O quarto brinde já
subimos o nível para mojito. Depois de tres cañas, cinco euros nem
parecem muito por um drink. Marcamos uma caipirinha para qualquer dia,
e ele se empolga com o convite. Outro mojito, já não tinha mais
assunto, estava passando do meu limite. Mas ainda tentava continuar
andando para outro bar.
Uma coronita pra lavar o rum. Agora eramos apenas três, a gordinha
se foi. Já não acompanhava muito bem o idioma. Mais alguns toques,
algumas indiretas e alguns sorrisos. Última coronita (que eu me
lembre) e ele quando vai pagar deixa cair no chão milhões de fotos
dele com sua namorada. Ninguém comenta nada a respeito. Ele mostra uma
foto de quando tinha 17 anos para disfarçar. Já são 6 horas e o bar
está fechando. Vamos a casa dela, que fica perto.
Um estúdio, nós dois em um sofá e ela no chão. Falamos muito, eu falo
muito. Somos íntimos. Somos já amigos de infância. Ele diz que
adora meu cabelo (e eu penso até quando), cai algumas vezes no meu
colo mas se levanta logo em seguida meio sem jeito. Ela se aproxima.
Ela puxa a mão dele meio que escondido. Os dois ficam fazendo carinho
por debaixo da perna dele. Ele se esquiva as vezes, ela volta a
puxa-lo. Eles fazem carinhos nas mãos explicitamente. Eu percebo que
sou o número ímpar. Já são 10 da manhã, vou embora. Ele diz duas vezes
que vai comigo, mas afinal ela não deixa. Estou morta e sozinha
tomando o metro de volta para casa. Durmo de exausta, acordo na minha
parada. Caio na cama para não pensar. O enjoo da bebida e o sentimento
de traição me acordam poucas horas depois.
Um amigo me chama, um colo me socorre. Um colo que me queria naquele
dia. Minha ressaca moral alivia. Mas ainda me sinto traída. Mais
traída do que quando realmente fui. Ainda tenho esperanças de
conquista-lo, mas aquela noite me pertencia. Ele é meu e
eu tenho medo dessa certeza, pois ela não me deixa segura. Não posso
crer que tenho que esperar até terça para vê-lo. Tenho medo. Tenho
medo que até terça ele já tenha se esquecido que é de mim que ele
gosta.

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